September 23, 2009

tempo amigo

Quero que o tempo se faça ligeiro, para que toda essa tormenta se transforme no infinito de paz que há tanto tempo risco em pensamentos.

September 6, 2009

Você me cansa. Me agride com as menores das suas palavras, sem nem mesmo saber a intenção escondida por trás delas. E me quebra. Os castelos que eu desenho no ar, você consegue com um leve sopro transformar em ruínas. Que não se comparam aos antigos templos romanos. Nem a Eldorado. Não sobra nada. Eu, calada, apenas recolho os farelos no chão. Pra tentar reconstruir. Não deve ser tão difícil assim.

May 5, 2007

Modo de usar-se

"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.
Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.
Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.
Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.
Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas. Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.
E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.
Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida. Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.
[martha medeiros]

April 26, 2007

A rolinha apressada bateu a cabeça no vidro.
O velório teve duração de algumas horas, o corpo velado em uma caixa de sapato.

- Rolinha boba, ainda não descobrimos como atravessar uma janela!

March 21, 2007


Saudades!

Veja bem, Anita, esse não é um jeito bem usual de começar uma carta. Mas sabe, precisava colocar isso pra fora, dividir isso com você também! Como é estar nessa cidade tão gigante, com prédios tão imponentes? Como é, querida amiga, conseguir alcançar todos os seus sonhos? Você é feliz? Você se sente completa? Porque eu não me sinto.

Desde janeiro daquele ano, parece que todas as peças do castelo que eu custei a construir vão caindo aos pouquinhos, como se insistissem em me ver desmoronar um pouquinho com elas. E com toda a sinceridade e coragem que eu juntei durante esses anos pra te escrever, eu te digo que dói bastante. Já não consigo lembrar do seu rosto, Anita, sem olhar nossas antigas fotos. Me perdoe, mas o tempo e o espaço entre nós agora é tão grande! E olhando essas fotos, a nostalgia vem bater à minha porta.

Foram muitas tardes no balanço, na sacada observando o movimento da ruela, muitos segredos mantidos a sete chaves, abraços e machucados, cartas longas e cheias de promessas vagas. Nunca imaginei que elas pudessem não se tornar realidade e vejo hoje o quanto o presente é precioso. Juro, Anita, que se eu soubesse que seria tão difícil sem você, nunca teria concordado com sua felicidade longe dessa cidade e dessa amiga que você há muito já deve ter esquecido.

Parece que me falta um pedacinho. E eu não posso ser meio completa. Eu preciso ser inteira, Anita. Eu preciso voltar o tempo, voltar minha integridade, voltar você. Volte, Anita. Volte.

Faça nossas promessas serem reais.

Nada tira tanto o gosto deste copo de whisky como sua ausência.

February 9, 2007

2006 piolhento.


2006 foi um ano estranho. Foi um ano fedorento e piolhento. Foi como passar as férias inteiras dentro de casa sem absolutamente nada pra fazer. Foi como ver os dias passarem e esperar só por isso. Contar o tempo. As horas, os dias, os meses. Pra nenhum acontecimento em especial. Foi dar banho em cachorro, passar talco pra, logo depois, ele sair rolando na grama suja de lama. E minhas expectativas (haha), essas viraram pó, assim como o talco. Foram todas pra lama, assim como o talco. E não serviram pra nada, assim como o banho no cachorro. O que restou dele foi como um cheiro no ar, um aroma que você não distingue, mas te irrita. Uma música que você não sabe a letra, mas ficou na sua cabeça. Uma foto esquecida na cômoda. Um presente guardado no fundo do armário. Um ex-namorado que você não quer ver nem pintado de rosa-choque. Por favor, 2007, chegue, mas chegue com tudo.
Adeus, ano feio.

November 28, 2006

A obsessão por um corpo perfeito.
(depoimento real)

Ano de 2000. Final de férias, família na praia, muita comida, peixe frito com limão, brincadeira na piscina, castelinho de areia, quilos de sorvete pra enganar o calor, refrigerante, dormir tarde. Férias típicas, comportamentos absolutamente normais. Em casa, quis checar minha altura e meu peso. Não muito satisfeita com meus 1,50m e 38kg, quis perder pelo menos dois. O arroz foi o primeiro alimento que eu cortei imediatamente da minha alimentação.
Uma dieta é corriqueira na vida de qualquer garota, tirando o fato de que eu tinha apenas 11 anos de idade na época. E o começo dessa dieta, foi também o começo de uma obsessão por um corpo esquelético, o início de uma doença que eu mal sabia da existência.
Aos poucos, fui cortando doces, frituras, carboidratos. Tudo o que pudesse me 'estragar'. Um biscoito a mais poderia me fazer engordar tudo de novo. Não buscava o equilíbrio do meu peso, buscava sempre menos. E menos, para mim, passou a ser ideal. Adorava poder sair de casa na hora das refeições, porque me livrara de um fardo. Ninguém desconfiava porém, que todo o meu esforço em perder peso era sinal de doença.
Minha mãe fez com que eu visitasse uma psicóloga, que me recomendou o uso de antidepressivos. Chorei muito quando soube a finalidade do remédio, me senti desesperada em saber que me tornaria dependente daquilo. Além disso, era outra coisa que me preocupava. De madrugada, li e reli a bula procurando saber se continha alguma caloria. Só o aceitei porque não tinha nenhum valor energético e, na verdade, sozinho, não surtia efeito algum.
Meus ossos já despontavam em toda roupa que eu usava, minhas roupas antigas ficavam frouxas, sentia muito frio, uma pelagem começou a nascer no meu corpo e a pouca energia que eu tinha, o ballet consumia. A minha responsabilidade era ainda maior porque eu estava na fila da frente na apresentação. Apesar da preocupação das professoras e da própria diretora da academia, não me sentia suficientemente magra, não estava nunca satisfeita. Comida havia se tornado sinônimo de algo nojento, que eu desprezava e não suportava sequer sentir o cheiro.
Nas férias de julho, dois dias antes de ir pro Rio, recebi a visita de um amigo da minha mãe que era psicólogo também. Ele conversou um pouco comigo, mas o que mais me lembro era da sua última fala: "Você vai morrer." O mais incrível é que não me abalou nem um pouco sequer. Preferia morrer a engordar ou ganhar algum grama novamente. Falei pra minha mãe que a partir dali comeria apenas frutas. Foi o que eu fiz.
No Rio de Janeiro, passei a me alimentar de uma maçã por dia no horário do almoço, em um ritual estranho, no qual a maçã era cortada em pedaços milimétricos e mastigada milhares e milhares de vezes. O resto do dia eu não comia absolutamente nada. Raramente bebia um copo d`água e me culpava severamente quando meu estômago me alertava de fome. Era a pior sensação do mundo. Sentir fome, pra mim, era comportamento de gordo.
Cheguei em casa com um aspecto mais cadavérico do que eu havia partido. No mesmo dia a noite, minha mãe me levou para o pronto socorro e fui internada, com 24kg. Passei a noite inteira no hospital, fingindo que dormia para escutar a conversa dos médicos com meus pais. "Se a senhora não trouxesse sua filha essa noite para o hospital, provavelmente ela não acordaria".
No outro dia de manhã, foi colocada uma sonda no meu corpo, que entrava pelo nariz e ia até o estômago, e me alimentaria, pois essa tarefa já não me cabia mais. Enquanto os médicos se esforçavam para me fazer cooperar com a implantação da sonda, ouvia o choro do meu pai no quarto. Por essa sonda, recebia um suplemento super calórico várias vezes ao dia e com ela, sobrevivi cerca de 15 dias sem sentir gosto algum de comida de verdade. Tive vários ataques de choro durante a minha estada, queria muito voltar pra casa; prometia para o meu pai que comeria o macarrão dos domingos, a lasanha, prometi tudo, apesar de saber que eu não cumpriria nunca. O consolo que eu recebia era o colo dele, as lágrimas dele se misturando às minhas e suas palavras.. "Filha, o que são alguns meses no hospital, diante dos anos que você ainda tem pra viver?"
Meus dias se resumiam a algumas horas no sol pela manhã, muitas visitas de amigos, familiares, cartinhas, algumas palavras cruzadas, ler, ver TV. Foi um período em que recebi apoio máximo de meus amigos e meus parentes. Não havia um dia em que o quarto não lotasse de visita de rostos queridos. Tinha um desejo enorme de poder sair, viver, respirar, ser NORMAL. Inúmeras vezes me peguei pensando em como arrancar aquela sonda de mim, como pular pela janela, como fugir dali.
A nutricionista me disse que eu só sairia se passasse a comer, pelo menos um pouco. Passei a comer vegetais crus, e não cederia mais. Passei o meu aniversário de 12 anos num quarto de hospital, ainda magra e fraca. Depois de pouco mais de um mês, pude voltar pra casa. O tratamento seria mantido lá, com a sonda e a alimentação por suplementos. Tentei fugir, várias vezes. Jogava comida fora, escondia, fazia qualquer coisa pra me livrar daquilo entrar no meu corpo.
A sonda teve de ser retirada por complicações no meu estômago. A produção de bile estava descontrolada e eu me sentia muito mal. O trato foi de que eu me alimentaria com os suplementos oralmente. Me alimentei com suplementos durante 6 anos. Enfrentei uma batalha de médicos, odiei várias psicólogas que tentavam me curar, chorei descontroladamente ínúmeras vezes na hora da refeição. Meu pai tinha de me dar comida na boca para que eu a aceitasse e me acalmasse um pouco.
Meu cabelo, que antes era liso e pesado, caiu quase que completamente. Ficou fraco, sem brilho e ralo. Mesmo assim, a minha obsessão não estava de todo curada. E não sei se posso afirmar com toda a convicção de que estou completamente livre da anorexia. Ainda hoje, tenho restrição à várias comidas. Minha alimentação é limitada, tenho pavor de engordar.
Não há uma explicação concreto do porquê de se entrar em toda essa loucura. São fatores psicológicos, culturais, do próprio ambiente em que se vive. Mas de uma coisa eu tenho certeza. Amadureci muito nesse pouco tempo, encarei problemas de "gente grande" com apenas 12 anos de idade. E não me arrependo de absolutamente NADA. Tudo isso me fez ser o que eu sou hoje, formou o meu caráter, me fez ver que eu tenho amigos de verdade e uma família maravilhosa.
Hoje, tenho 1,63m de altura, 12cm a menos do que eu teria com a herança dos meus pais, segundo uma endocrinologista. Tenho 49kg e me sinto super bem com o meu corpo. Sou feliz, tenho amigas perfeitas, levo uma vida completamente normal. Não desejo a ninguém que passe pelo que eu passei. Emagreça, se quiser e se for realmente necessário. Mas emagreça com saúde e com consciência. Anorexia pode ser uma viagem da qual nem todos voltam.

E sim, sou eu mesma, a dona desse blog, a atriz principal de toda essa doidera!
Um beijo, muita saúde pra vcs! :*